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Palavras minhas


Caneta

Ao passo que a caneta muda de cor, percebe-se que se escreveu demais. Canetas azuis são diferentes, o azul da tinta é diferente para cada caneta diferente. Fora as idênticas, mas creio que não são muitas as pessoas no mundo que possuem várias canetas azuis idênticas em casa, no seu estojo, no seu escritório. Afinal de contas, a diversidade das coisas é um atrativo e tanto para nós. Com as canetas de tinta preta acontece a mesma coisa. Lembro-me agora das cartas que escrevi, em nenhuma delas, por maiores que fossem, não necessariamente cheia de significados, foi preciso mudar a caneta, mas engraçado como uma caneta pode nos trazer à memória o momento em que algo foi escrito. Não costumo usar canetas de tinta preta, mas algumas poucas me atraem pela tinta mais aguada, ou mesmo por ser uma caneta tinteira. Quase não se usa mais canetas, muito menos tinteira, mas quase todo passado tem seu tom de nostalgia ou expressão simbólica da apreciação moderna “aprimorada” das coisas do passado - nem tão passado, mas que passou tão “rápido”, foi engolido por tecnologias e tecnologias, que permanece na lembrança de poucos que chegaram a utilizar os pequenos ou grandes utensílios de uma época ultrapassada, mas que deve ter significado alguma coisa para alguém.
Onde eu estava tinha de escrever à mão. Ganhei um caderno e uma caneta (tive de pedir mais). Eu me lembro de tudo que escrevi. Lembro-me de todas as cartas que escrevi para aqueles que nunca leram. Lembro da cor exata da caneta, das canetas, ia dormir com as mãos manchadas de tinta. Não importa quem não leu, alguns nem poderiam mesmo ler, mas o mais importante, era que eu não podia nada fazer além de escrever, falar naquele momento eu não podia mais. Era também como se fosse uma fuga, um meio de comunicação ineficiente, pois quem não escreve bem não pode se fazer entender, não pode reclamar, eu não reclamo, nunca reclamei, tanto porque aprendi que é mais difícil entender a mim, por meio de minhas palavras do que simplesmente olhando para mim.
O momento da minha vida em que percebi que era mais fácil entender alguém através do que se vê foi estranho, quando percebi que a imagem tem sentimentos, eu entendi muita coisa do mundo, e compreendi que o mundo é cego, e muito, às vezes, muito frio. Os opostos em minha vida vieram a mim através de imagens, duas pessoas, dois seres que me mostraram o pior da tragédia, aquilo que acabou, e o brilho do mundo, a esperança. Mas não a esperança sem medo, pois eu nunca pedi aquilo, eu não pedi tamanha felicidade, e nem sabia que ela poderia existir, naquele formato. Para a vida eu nunca dei muito valor, e mesmo por tudo que passei, não poderia imaginar quão frágil ela era.
As canetas fizeram sempre parte de minha vida. Eu perdi muitas canetas.
As canetas continuam perdidas, mas uma delas eu achei. Acordei do sono profundo, e apesar de aparentemente vivendo no mundo de “todo mundo”, não mais isolada num campo que cheirava enxofre, onde a esquizofrenia era mais comum do que ter cinco dedos nas mãos, apesar de aparentemente normal, eu soube que eu não era como “todo mundo”. Eu achei a caneta, a caneta lembrança do que teria acontecido, mas nunca ocorreu. Por Deus eu não queria nunca achar mais aquela caneta, ela não me trazia lembranças do que tinha escrito, mas sim do momento em que visualizei a tragédia. A caneta não era minha, a caneta era da minha irmã. Eu sabia que era dela porque tinha seu nome gravado: Lisa. Fora exatamente com aquela caneta que eu comecei a minha coleção de canetas. Após a morte de nossos pais, tragicamente jovens e já infelizes num casamento armado e duas filhas não amadas, Lisa reservou a mim um espaço dentre os doentes


Escrito por T.B às 17h15
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...estive nas mais lindas ruas do mundo, conheci pessoas do outro lado do mundo, descobri que tem gente parecida comigo naquele lado. Tem também gente muito diferente, com quem aprendi, ouvi histórias, discuti. Nesse tempo senti saudades dos que estavam “aqui”, mas voltei e hoje sinto saudades dos de “lá”. Queria estar em todos os lugares, não posso, mas não quero deixar de sentir saudades,..., apesar de ser muito nova para viver com o sentimento tão forte de desacordo com a sociedade e a maioria das pessoas ao meu redor, eu ainda tenho aqueles poucos, aqui ou acolá, que de certa forma me entendem, ou simplesmente me aceitam. Escrevo por parecer-me o meio mais fácil de me expressar e mesmo de me conhecer, o que acarreta dois problemas: minha tendência à prolixidade e a tendência anti-leitura da sociedade.

E eu me pergunto: sou eu o que eu desejo?


Escrito por T.B às 17h13
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